Autora: Cátia Almeida (Pedopsiquiatra no Centro Hospitalar Cova da Beira)
Desengane-se quem pensa que se pode aprender bem e ter sucesso académico só por se ter um bom QI (quociente de inteligência). Desde as primeiras escalas de Binet e Simon para a determinação do nível de inteligência nos primórdios do século XX, até à teoria das Inteligências múltiplas de Gardner nos anos 80 e ao conceito de Inteligência Emocional desenvolvido na mesma altura por autores como Payne e Goleman, é aceite indiscutivelmente que várias competências estão em jogo na hora de aprender.
Apesar disso, vive-se ainda hoje uma visão duplamente clivada do ser humano, em que corpo e mente estão separados, bem como a cognição e a emoção. Na clínica pedopsiquiátrica, ouvem-se frequentemente queixas como estas: “foi a minha perna que bateu!”, “a minha cabeça não me controla!” ou “estudei tanto e depois tive uma branca!”. A verdade é que vivemos como se o nosso cérebro não tivesse uma fantástica rede neuronal de 100 biliões de neurónios, que estabelecem entre si mil biliões de sinapses, sem soluções de continuidade, sem portagens nem barreiras no pescoço a dividir mente e corpo. Somos uma unidade. E como unidade que somos, tudo afeta tudo.
As emoções não são inimigas da racionalidade nem das relações sociais. São, pelo contrário, o seu garante. Desempenham funções adaptativas, comunicacionais, sociais e integradoras. Guiam a nossa perceção do mundo, as nossas memórias do passado e até os nossos juízos morais do que é certo ou errado, de uma forma que permite à pessoa dar respostas mais eficazes à situação/adversidade atual. O que seria tomar uma decisão sem emoções? Analisaríamos à exaustão os prós e os contras de cada uma das mil opções disponíveis… Não chegaria uma vida!
Saber reconhecer as próprias emoções e as emoções dos outros -Inteligência Emocional - permite-nos guiar o nosso pensamento e o nosso comportamento, o que é essencial para aprender. Permite-nos comunicar as nossas necessidades, empatizar com os outros, resolver problemas de forma eficaz, interpretar as pistas do ambiente e tomar decisões.
Se queremos alunos de sucesso, temos de começar a cuidar um pouco mais do seu cérebro emocional. E assim, vamos ter novas gerações mais realizadas, mais felizes, mais saudáveis, do ponto de vista físico e mental.
Cátia Almeida - Pedopsiquiatra no Centro Hospitalar Cova da Beira
No 1º Congresso Nacional de PHDA:
UM CÉREBRO QUE APRENDE A PARAR [Quinta-feira, 10 de maio | 11h20]


